quarta-feira, 4 de março de 2009
Por que ler um livro que odiamos?
Como? No mesmo parágrafo o ator escreve verdade para em seguida trocar por veracidade. Tais palavras têm o mesmo significado? No dicionário Aurélio a palavra verdade é:
1.Conformidade com o real; exatidão, realidade:
a verdade do ocorrido.
E veracidade é:
1.Qualidade de veraz; veridicidade, verdade.
2.Apego à verdade. Então são sinônimas. Mas por que, de repente, um desconforto?
Já que abri a primeira página, salto algumas linhas para conferir se vou dar ao autor o direito de minha atenção.
"Considerando que queremos a verdade : por que não havíamos de preferir a não-verdade? Talvez a incerteza? Quem sabe a ignorância?"
Como? Diz ele que podemos não querer a verdade? Ter o direito de preferir a ignorância? Mas quem ele pensa que é?
E com muita irritação vou em frente:
"Poderia algo nascer do seu contrário? Por exemplo, a verdade do erro? Ou ainda o desejo de verdade do desejo de engano? "
Não consigo fechar o livro e vou ficando, cada vez mais, mais irritada.
Vou a qualquer página do final, 155:
Sete sentençazinhas femininas, já insultante pelo diminutivo. Escolho a mais "sacana":
"Vestida de negro e calada, toda mulher tem aspecto de - inteligente."
Está bem, quer dizer, está tudo mal! A irritação subiu ao nível da curiosidade mais implacável. Não concordo com nada, mas quero saber mais.
Quanto mais Nietzsche será capaz de ser insultante? Para saber, preciso comprar o livro. E lá vou eu mais uma vez, presa pelas palavras, até daquelas de que não gostei, ler os pensamentos de um homem do século XIX que conseguiu questionar os valores morais, colocando a distinção entre força e fraqueza como definidora do valor supremo.
terça-feira, 17 de fevereiro de 2009
Ainda os textos fundadores...
Camões, inspirado pela narrativa bíblica, escreveu em seu livro Rimas:
Sete anos de pastor Jacob servia
Labão, pai de Raquel, serrana bela;
Mas não servia ao pai, servia a ela,
E a ela só por prémio pretendia.
Os dias, na esperança de um só dia,
Passava, contentando-se com vê-la;
Porém o pai, usando de cautela,
Em lugar de Raquel lhe dava Lia.
Vendo o triste pastor que com enganos
Lhe fora assi negada a sua pastora,
Como se a não tivera merecida;
Começa de servir outros sete anos,
Dizendo: – Mais servira, se não fora
Para tão longo amor tão curta a vida!
Um soneto lindo, com todas as características clássicas: harmonia, equilíbrio, beleza. Emoção e razão na justa medida para falar de um imenso amor.
Mas Camões inspirou-se em qual narrativa, quais as palavras que o levaram a escrever tal poema?
Vejamos o texto bíblico em Gênesis, 29, 16-30:
Ora, Labão tinha duas filhas: a mais velha chamava-se Lia, e a mais nova, Raquel. Lia tinha os olhos embaciados, e Raquel era bela de talhe e rosto. Jacó, que amava Raquel, disse a labão: "Eu te servirei sete anos por Raquel, tua filha mais nova". "É melhor, respondeu Labão, dá-la a ti que a outro: fica comigo". Assim, Jacó serviu por Raquel sete anos, que lhe pareceram dias, tão grande era o amor que lhe tinha. Disse, pois, a Labão: "Dá-me minha mulher, porque está completo o meu tempo e quero desposá-la." Labão reuniu todos os habitantes do lugar e deu um banquete. Mas, à noite, conduziu Lia a Jacó que se uniu com ela. E deu a sua filha Lia, sua escrava Zelfa. Pela manhã, viu Jacó que tinha ficado com Lia. E disse a Labão: "Que me fizeste? Não foi por Raquel que te servi? Por que me enganaste?" "Aqui não é costume casar a mais nova antes da mais velha. Acaba a semana com esta, e depois te darei também sua irmã, à condição, que me sirvas ainda sete anos." Assim fez Jacó: acabou a semana com Lia, e depois lhe deu Labão por mulher sua filha Raquel dando por serva a Raquel sua escrava Bala. Jacó uniu-se também a Raquel, a quem amou mais do que a Lia. E serviu ainda por sete anos em casa de Labão.
Amo Camões por vários textos. Este mais que todos, porque, pensando com a visão de mundo do século XVI, elimina a continuação da história. No poema temos impressão de que Jacó esperou, para ter Raquel, quatorze anos. Um amor infinito que esperaria outro tanto, se a vida não fosse tão curta!
Na Bíblia, Jacó esperou apenas uma semana. Mas a imposição social, que o esperto Labão não explicita ao estrangeiro Jacó, tão focado em seu amor que não percebe o que lhe vai em volta, leva-o ao inferno amoroso de ter uma obrigação que não esperava.
Jacó se engana de mulher porque... A Bíblia não conta. Só podemos inaginar. Bebeu demais? Nunca havia se aproximado fisicamente de Raquel?
E Lia? Só obedece à convenção social? Penso que mulher alguma gostaria de estar na pele dela.Tinha um defeito: olhos embaciados. Míopes? Cataratas?
Mas é Lia, agraciada por Deus, que dá filhos a Jacó: Rubem, Simeão, Levi e Judá, sempre achando que o marido se ligaria finalmente a ela. Nunca acontecerá. E Camões acerta na intensidade do amor de Jacó.
Nunca entenderei por que o Deus do Velho Testamento castiga o amor de Jacó e Raquel. Mas sempre terei admiração por esse homem que tem um momento de infinito amor.
Por que momento? É que as duas escravas, Zelfa e Bala também... Mas deixe para lá. Fica para outra vez.
domingo, 15 de fevereiro de 2009
Apolo deus X Apolo homem
Das mulheres de Tróia, uma que me impressiona é Cassandra, filha do rei Príamo e da rainha Hécuba, irmã de Páris e Heitor.
Conforme um dos mitos, é irmã gêmea de Heleno. Em outro, gêmea de Páris. De qualquer forma, transforma-se em virgem de Apolo, que apaixonado por ela (os deuses têm poderes, mas sua psicologia, moral, ética são humanas.) pede-lhe que se entregue a ele em troca de prever os acontecimentos. Ela aceita o dom mas se recusa a cumprir sua parte. Na discussão entre os dois, ela defende sua primeira promessa de virgindade ao deus. Ele, nesse momento um macho indigno e perfeitamente humano, irrita-se com a recusa e, ainda que permita que ela mantenha o dom, roga-lhe maldição de nunca ser acreditada por ninguém.
A partir daí, Cassandra é uma personagem de tragédia.
Para os troianos, ela enlouqueceu, pois afirma que é melhor matar Páris que será o responsável pela destruição de Tróia. Nem seus pais acreditam nela, e é por isso que a trancam em uma torre para não continuar a prever desgraças.
Quando o sábio Ulisses inventa o cavalo, duas pessoas se rebelam contra a idéia de aceitar o presente dos gregos: Laocoonte, adivinho, morto por uma serpente de Poseidon no mesmo nomento em que debocha dos gregos e de seus presentes ... e Cassandra. Como ninguém a ouve, ela se refugia no templo da deusa Atena onde é encontrada e violada pelo "herói" Ajáx, apesar de os templos serem considerados lugares de proteçã0 de pessoas indefesas.
Há mais tragédia para a adivinha. No butim após o incêndio de Tróia, Cassandra é levada por Agamenon. Cassandra o avisa que não volte à Grécia, prevendo que serão ambos assassinados por Clitemnestra e seu amante Egisto. Como sempre, desacreditada, o futuro se cumpre.
Pobre Cassandra... sempre lembrada quando alguém prevê desgraças nas quais ninguém acredita, tratam sua lembrança da mesma forma como os troianos a trataram.
Uma heroína trágica, de quem tenho pena. Seu desejo era se manter virgem para um deus que, ela não sabia, não existia.
O vaidoso Apolo, identificado como o deus da luz e do sol, da verdade e da profecia, do pastoreio, do tiro com arco, da beleza, da medicina e da cura, da música, da poesia e das artes, tem na história de Cassandra um papel mesquinho e impiedoso. Sempre representado como um jovem, frequentemente nu, para simbolizar a pureza e a perfeição, não entende que alguém pode ser-lhe devotada e não pagar com favores sexuais.
Decididamente, Apolo não entendia Cassandra. Como ela ousara aceitar seu favor e não pagar-lhe? A vingança contra a pobre adivinha tem o peso e tamanho da ira de um deus, e o ciúme e insegurança do mais reles mortal.
sábado, 17 de janeiro de 2009
Textos fundadores
Aquiles matou 22 heróis troianos. Heitor, 28 dos gregos. Sem nunca ter feito nada de errado - era bom filho, bom irmão, bom marido, bom pai - herda todos os problemas iniciados por Páris ao raptar Helena: sendo o herói da cidade, precisa defender seu pai, o rei Príamo e principalmente sua cidade, Tróia. É um patriota! Aquiles é um guerreiro e somente isso. Toda essa parte da narrativa está na Ilíada.
Aquiles morre com uma flecha atirada por Páris que conhece seu segredo, contado pelo deus Apolo. A partir daí passa ao primeiro plano o herói, o arguto Odisseu (Ulisses). Inventa o cavalo, ajuda a queimar Tróia e sofre por mais dez anos para voltar para sua ilha de Ítaca. E consegue. Aqui a Odisséia.
Estes são textos fundadores da cultura ocidental, escritos provavelmente no século VIII a. C. , por um provável poeta Homero ou por homeros, quem sabe?
No século I a. C. o poeta latino Virgílio publica a Eneida, um texto fundador de nossas raízes lingüísticas. Seu herói, troiano que não é destacado durante as batalhas nas praias de sua terra, é marido de Creúsa, genro de Príamo e, portanto, cunhado de Heitor e Páris. Grande guerreiro, tenente de Heitor, é protegido por Afrodite que, no incêndio da cidade, ajuda-o a escapar. Ele atravessa os mares para chegar ao Lácio onde seus descendentes, Rômulo e Remo, fundarão uma grande cidade: Roma, onde se falará o Latim. Do latim e pelos tempos chegamos ao cerne da raiz da Língua portuguesa. E assim se expressa Olavo Bilac em seu soneto LÍNGUA PORTUGUESA
Última flor do Lácio, inculta e bela,
És, a um tempo, esplendor e sepultura:
Ouro nativo, que na ganga impura
A bruta mina entre os cascalhos vela...
Amo-te assim, desconhecida e obscura,
Tuba de alto clangor, lira singela,
Que tens o trom e o silvo da procela
E o arrolo da saudade e da ternura!
Amo o teu viço agreste e o teu aroma
De virgens selvas e de oceano largo!
Amo-te, ó rude e doloroso idioma,
Em que da voz materna ouvi: "meu filho!"
E em que Camões chorou, no exílio amargo,
O gênio sem ventura e o amor sem brilho!
Voltando às raízes da literatura Ocidental, ou melhor, aos textos fundadores de nossa cultura, penso que oferecem uma visão abrangente da construção do mundo, cultura, história, filosofia e arte.
A Eneida de Virgílio, poema épico encomendado pelo imperador César Otaviano Augusto e concluído em 19 a. C., canta a glória e o poder de Roma.
Que temos a ver com isso? Tudo.
Até.
domingo, 11 de janeiro de 2009
Primeira página
"O bom senso é a coisa do mundo mais bem distribuída, porquanto cada um acredita estar tão bem provido dele que, mesmo aqueles que são os mais difíceis de contentar em qualquer outra coisa, não costumam tê-lo mais do que já o têm." Discurso do método - Descartes
"Antes de iniciar este livro, imaginei construí-lo pela divisão do trabalho. Dirigi-me a alguns amigos, e quase todos consentiram de boa vontade em contribuir poara o desenvolvimento das letras nacionais." São Bernardo - Graciliano Ramos.
"Todos sabem o que se pretende dizer quando se usa a palavra "sociedade" ou pelo menos todos pensam saber. A palavra é passada de uma pessoa para outra como uma moeda cujo valor fosse conhecido e cujo conteúdo já não precisasse ser testado. Quando uma pessoa diz "sociedade" e outra a escuta, elas se entendem sem dificuldade. Mas será que realmente nos entendemos?" A sociedade dos indivíduos - Norbert Elias
"Por muito incongruente que possa parecer a quem não ande ao tento da importãncia das alcovas, sejam elas sacramentadas, laicas ou irregulares, no bom funcionamento das administrações públicas, o primeiro passo da extraordinária viagem de um elefante à áustria que nos propusemos narrar foi dado nos reais aposentos da corte portuguesa, mais ou menos à hora de ir para a cama." A viagem do elefante - José Saramago.
" Um dos traços mais notáveis de nossa cultura é que se fale tanta merda. Todos sabem disso. Cada um de nós contribui com sua parte. Mas tendemos a não perceber essa situação. A maioria das pessoas confia muito em sua capacidade de reconhecer quando se está falando merda e de evitar se envolver. Assim, o fenômeno nunca despertou preocupações especiais nem induziu uma investigação sistemática." Sobre falar merda - Harry G. Frankfurt.
"Pensar na vigência dos dez mandamentos em pleno século XXI pode ser visto como algo antiquado, ou pelo menos como uma perda de tempo. Minha relação com essas leis remonta à minha mais tenra infância. Eram os anos em que Deus e Franco estavam em toda parte. Em nossas aulas de religião, tentavam nos convencer, entre outras coisas, a respeitar fielmente os mandamentos e a palavra do Caudilho." - Os dez mandamentos para o século XXI - Fernando Savater.
Há mais exemplos. Fica para uma próxima vez.
sexta-feira, 2 de janeiro de 2009
Fundamentos literários da Cultura Ocidental
Como tais obras nos influenciam?
A Ilíada traz-nos o belo, jovem, impetuoso Aquiles, indicando-nos que se tivermos um ponto fraco, deverá estar no nosso calcanhar, à imitação do herói. A Odisséia traz dois heróis: de um lado o esperto, teimoso e cheio de orgulho Ulisses que, ao cabo da narrativa, precisa reconhecer que não é mais que um simples homem. De outro lado, e mais importante para mim, a fiel Penélope a quem o Buarque, Chico, nos ordena mirar-nos.
A Bíblia é fonte para todas as artes, da religiosa á profana. Prova? Sei que Bruce Dickinson, em 1989, ao cantar The Number of the Beast, só o fez porque havia lido o Apocalipse de João, no testamento mais novo, e, somente por conta dessa leitura, sabia que o número da besta é 666.
A cultura Ocidental deve muito a esses livros. Não havendo outra razão para lê-los, pelo menos considere-se como fontes inesgotáveis e explicativas para várias crenças da atualidade.
sábado, 13 de dezembro de 2008
Uma bloguer? Uma blogueira?
Algumas pessoas insinuaram que se eu escrevesse o que sei sobre Literatura e seu ensino em um blog, haveria quem lesse. Coloquei em dúvida. E por isso, demorei-me a decidir. Não há quem escreva para não ser lido. Até quem não mostra seus textos a ninguém, acaba por ler-se. É um destino infeliz para um texto nunca ser lido.
Enfim, curiosa por própria conta, resolvi-me a escrever e, assim sendo, fico com Brás Cubas que, dirigindo-se a seus prováveis cinco leitores em suas memórias póstumas, afirma: "Que Stendhal confessasse haver escrito um de seus livros para cem leitores, coisa é que admira e consterna. O que não admira, nem provavelmente consternará é se este outro livro não tiver os cem leitores de Stendhal, nem cinqüenta, nem vinte e, quando muito, dez. Dez? Talvez cinco. "
Estou, portanto, bem acompanhada na preocupação, já que Stendhal era um importante romancista romântico francês e Brás Cubas a personagem por trás de quem está nosso Machado de Assis, comumentemente classificado como um realista, mas que extrapola qualquer fronteira literária.
Eis o texto inicial. Haverá uma continuação.
Até.