quarta-feira, 4 de março de 2009

Por que ler um livro que odiamos?

Dentro de uma biblioteca ou uma livraria, rodeados de livros, temos de fazer escolhas. Quase sempre são os títulos que nos "pegam". Por exemplo: como não abrir um livro cujo título é: "Para além do bem e do mal: prelúdio a uma filosofia do futuro". As bibliotecas têm suas regras, mas os livreiros sabem que somente fazendo uma primeira leitura é que pagaremos por um livro. Por isso, deixam-nos poltronas confortáveis, ninguém nos interpela e podemos ler um livro completo se quisermos fazê-lo. Então vamos ao primeiro parágrafo deste texto, cujo primeiro capítulo chama-se "Dos preconceitos dos filósofos", rompendo com a idéia de que um filósofo, até por ser, básica e notoriamente reflexivo, não deveria permitir que seus preconceitos contaminassem suas escolhas. "A necessidade de saber a verdade ainda há de nos arrastar para muitas aventuras, essa célebre veracidade de que todos os filósofos falaram até hoje com veneração."

Como? No mesmo parágrafo o ator escreve verdade para em seguida trocar por veracidade. Tais palavras têm o mesmo significado? No dicionário Aurélio a palavra verdade é:
1.Conformidade com o real; exatidão, realidade:
a verdade do ocorrido.

E veracidade é:
1.Qualidade de veraz; veridicidade, verdade.
2.Apego à verdade. Então são sinônimas. Mas por que, de repente, um desconforto?
Já que abri a primeira página, salto algumas linhas para conferir se vou dar ao autor o direito de minha atenção.
"Considerando que queremos a verdade : por que não havíamos de preferir a não-verdade? Talvez a incerteza? Quem sabe a ignorância?"
Como? Diz ele que podemos não querer a verdade? Ter o direito de preferir a ignorância? Mas quem ele pensa que é?
E com muita irritação vou em frente:
"Poderia algo nascer do seu contrário? Por exemplo, a verdade do erro? Ou ainda o desejo de verdade do desejo de engano? "
Não consigo fechar o livro e vou ficando, cada vez mais, mais irritada.
Vou a qualquer página do final, 155:
Sete sentençazinhas femininas, já insultante pelo diminutivo. Escolho a mais "sacana":
"Vestida de negro e calada, toda mulher tem aspecto de - inteligente."

Está bem, quer dizer, está tudo mal! A irritação subiu ao nível da curiosidade mais implacável. Não concordo com nada, mas quero saber mais.
Quanto mais Nietzsche será capaz de ser insultante? Para saber, preciso comprar o livro. E lá vou eu mais uma vez, presa pelas palavras, até daquelas de que não gostei, ler os pensamentos de um homem do século XIX que conseguiu questionar os valores morais, colocando a distinção entre força e fraqueza como definidora do valor supremo.

2 comentários:

disse...

Jussemy,
Já senti muitas vezes esta irritação com o que estava lendo, e, numa atitude paradoxal, nem assim a leitura foi abandonada.
Jussemy, post com pegada total, se é que se pode falar assim. Mais que nunca, sua seguidora fiel.

disse...

Vá lá: é a segunda vez que escrevo este comentário. Se chegar o primeiro, delete este. A internet tem algo contra mim. Parece q faço tudo direitinho, mas, de repente, tudo sai errado.
Sobre este post, senti-me vingada de todos os livros com os quais briguei. E o pior: que continuei a ler e a comprar.
Você, minha amiga, conseguiu descrever e desvendar este processo de rejeição e atração, concomitantes, por uma leitura. A sua frase " Mas quem ele pensa que é?" já a escrevi ao lado de uns versos, um dia lhe conto de quem.
É até gostoso brigar assim, não é?
Mais que nunca sua seguidora fiel.