Dentro de uma biblioteca ou uma livraria, rodeados de livros, temos de fazer escolhas. Quase sempre são os títulos que nos "pegam". Por exemplo: como não abrir um livro cujo título é: "Para além do bem e do mal: prelúdio a uma filosofia do futuro". As bibliotecas têm suas regras, mas os livreiros sabem que somente fazendo uma primeira leitura é que pagaremos por um livro. Por isso, deixam-nos poltronas confortáveis, ninguém nos interpela e podemos ler um livro completo se quisermos fazê-lo. Então vamos ao primeiro parágrafo deste texto, cujo primeiro capítulo chama-se "Dos preconceitos dos filósofos", rompendo com a idéia de que um filósofo, até por ser, básica e notoriamente reflexivo, não deveria permitir que seus preconceitos contaminassem suas escolhas. "A necessidade de saber a verdade ainda há de nos arrastar para muitas aventuras, essa célebre veracidade de que todos os filósofos falaram até hoje com veneração."
Como? No mesmo parágrafo o ator escreve verdade para em seguida trocar por veracidade. Tais palavras têm o mesmo significado? No dicionário Aurélio a palavra verdade é:
1.Conformidade com o real; exatidão, realidade:
a verdade do ocorrido.
E veracidade é:
1.Qualidade de veraz; veridicidade, verdade.
2.Apego à verdade. Então são sinônimas. Mas por que, de repente, um desconforto?
Já que abri a primeira página, salto algumas linhas para conferir se vou dar ao autor o direito de minha atenção.
"Considerando que queremos a verdade : por que não havíamos de preferir a não-verdade? Talvez a incerteza? Quem sabe a ignorância?"
Como? Diz ele que podemos não querer a verdade? Ter o direito de preferir a ignorância? Mas quem ele pensa que é?
E com muita irritação vou em frente:
"Poderia algo nascer do seu contrário? Por exemplo, a verdade do erro? Ou ainda o desejo de verdade do desejo de engano? "
Não consigo fechar o livro e vou ficando, cada vez mais, mais irritada.
Vou a qualquer página do final, 155:
Sete sentençazinhas femininas, já insultante pelo diminutivo. Escolho a mais "sacana":
"Vestida de negro e calada, toda mulher tem aspecto de - inteligente."
Está bem, quer dizer, está tudo mal! A irritação subiu ao nível da curiosidade mais implacável. Não concordo com nada, mas quero saber mais.
Quanto mais Nietzsche será capaz de ser insultante? Para saber, preciso comprar o livro. E lá vou eu mais uma vez, presa pelas palavras, até daquelas de que não gostei, ler os pensamentos de um homem do século XIX que conseguiu questionar os valores morais, colocando a distinção entre força e fraqueza como definidora do valor supremo.
quarta-feira, 4 de março de 2009
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2 comentários:
Jussemy,
Já senti muitas vezes esta irritação com o que estava lendo, e, numa atitude paradoxal, nem assim a leitura foi abandonada.
Jussemy, post com pegada total, se é que se pode falar assim. Mais que nunca, sua seguidora fiel.
Vá lá: é a segunda vez que escrevo este comentário. Se chegar o primeiro, delete este. A internet tem algo contra mim. Parece q faço tudo direitinho, mas, de repente, tudo sai errado.
Sobre este post, senti-me vingada de todos os livros com os quais briguei. E o pior: que continuei a ler e a comprar.
Você, minha amiga, conseguiu descrever e desvendar este processo de rejeição e atração, concomitantes, por uma leitura. A sua frase " Mas quem ele pensa que é?" já a escrevi ao lado de uns versos, um dia lhe conto de quem.
É até gostoso brigar assim, não é?
Mais que nunca sua seguidora fiel.
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